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Perguntas e
respostas
Fernando Ataliba
1. Por que alguns agricultores usam agrotóxicos e outros
não?
É importante dizer que os agricultores que usam agrotóxicos não são vilões,
não o fazem por mal, mas foram vítimas da campanha que as multinacionais,
juntamente com os governos, orquestraram para criar uma dependência dos
agricultores em relação à indústria. Por décadas os governos emprestavam
dinheiro (com juros subsidiados) para os agricultores, desde que este
dinheiro fosse gasto com agroquímicos industriais. As instituições de
pesquisa, incluindo as universidades, tiveram e ainda têm suas pesquisas financiadas
pela indústria química. Poucos agricultores em todo o mundo conseguiram
ficar fora desta onda. Entretanto, constatou-se que esta forma de plantar
provoca diversos tipos de doenças (entre as quais o câncer); contamina as
águas subterrâneas, os rios e os lagos; contamina e destrói a fertilidade
dos solos e provoca outros males. Foi então, que teve início a valorização
daqueles que aplicam uma agricultura que respeita a natureza.
2. Frutos grandes e bonitos indicam o uso de agrotóxicos?
Não. O que determina o tamanho e a aparência de um fruto é,
preponderantemente, sua genética. O fruto que recebe uma nutrição
correspondente a suas necessidades vai desenvolver seu potencial genético.
Muitas vezes frutos pequenos e tortos indicam plantas subnutridas. No
sistema convencional podem indicar plantas intoxicadas por agrot óxicos.
3. Como saber se o produto que estou comprando é realmente
orgânico?
Quem garante o produto orgânico são as certificadoras, órgãos não
governamentais que realizam inspeções periódicas nos produtores e atestam
que todas as normas estão sendo respeitadas. Portanto, o consumidor pode
confiar nos produtos com o selo de uma das certificadoras id ôneas que
atuam no país.
4. Qual é a semelhança entre produtos orgânicos e produtos
hidropônicos?
Nenhuma. A agricultura orgânica e a hidroponia seguiram tendências opostas
na agronomia. Os agricultores orgânicos procuram uma reaproximação da
natureza, enquanto os hidropônicos optaram por um afastamento radical, com
métodos tão antinaturais como a supressão do solo e a nutrição pela adição
de nutrientes químicos solúveis à água. Os produtos hidropônicos podem
receber tanto, ou mais, agrotóxicos quanto os produtos da agricultura
convencional.
5. Por que os produtos orgânicos custam tão caro?
Nesta pergunta está embutido o preço dos produtos convencionais como
parâmetro. Na verdade, os preços dos produtos convencionais oscilam
bastante em função da oferta e da procura. Já os produtos orgânicos seguem
preços de tabela mais estáveis. Há momentos em que o preço dos
convencionais ultrapassa bastante o dos orgânicos. Há, porém, dois fatores
importantes para elucidar a questão. Em primeiro lugar, os produtos
convencionais são muitas vezes vendidos a preços inferiores aos custos de
produção, com conseqüências desastrosas para os agricultores e para toda a
sociedade. O segundo fator diz respeito aos preços nos supermercados. Por
alguma razão que só os supermercadistas podem explicar, os produtos
orgânicos estão entre os itens que contêm as maiores margens de lucro para
estas lojas.
6. Quais são os alimentos convencionais mais contaminados
por agrotóxicos?
O grande problema da agricultura convencional é que não sabemos o que
estamos comendo. Tanto podemos estar comendo um alimento não contaminado,
como podemos estar comendo substâncias altamente nocivas à saúde. Qualquer
alimento convencional pode estar gravemente contaminado.
7. Existem técnicas seguras para descontaminar um alimento
convencional?
Não. A única técnica segura de descontaminação ocorre em relação a
coliformes, quando deixamos os alimentos de molho em cloro ou vinagre.
Entretanto, quanto aos agrotóxicos não há nenhuma segurança. Não adianta
retirar a casca, nem supor que os tubérculos, por estarem embaixo do solo,
estão seguros. Alguns dos agrotóxicos mais perigosos são sistêmicos e estão
na seiva de toda a planta.
8. Frutas e hortaliças orgânicas também precisam ser
lavadas?
Sim. Higiene não tem nada a ver com contaminação por agrotóxicos. Os
produtos orgânicos, principalmente aqueles que são consumidos crus, foram
manipulados, armazenados e devem receber os mesmos cuidados higiênicos como
qualquer outro produto.
9. Para que servem as estufas na agricultura orgânica?
Basicamente, as estufas seguram os raios solares aumentando o efeito sobre
os vegetais. Vale lembrar, que os raios solares são a principal fonte
energética dos vegetais, para o processo de fotossíntese. Na agricultura
orgânica existem ainda outras razões para o uso de estufas. Por ser um
ambiente controlado, podemos manter, dentro da estufa, as melhores
condições de conforto ambiental (temperatura, umidade do ar e vento) para
as plantas, aumentando sua resistência natural às pragas e às doenças.
10. O que é adubação verde e para que serve?
A adubação verde é o plantio de diversas espécies vegetais intercalado ou
concomitante às culturas comerciais. Com a adubação verde a agricultura
orgânica procura imitar o que ocorre nas florestas naturais: diversificar
os tipos de vegetação no solo, diversificar os tipos de microrganismos no
solo, adicionar matéria orgânica ao solo, interromper o ciclo de pragas e
doenças etc.
11. O que é compostagem e para que serve?
A compostagem também imita os processos da natureza. Assim como ocorre nas
florestas naturais, buscamos, com a compostagem, reciclar a vida. A matéria
orgânica obtida dos restos de processos agrícolas, industriais ou
residenciais precisa sofrer um processo de compostagem (fermentação) que
pode ser acrescido de minerais e voltar ao solo, devolvendo a ele o que lhe
foi retirado.
12. Qual é a diferença entre melhoria genética e os
transgênicos?
Há milhares de anos os homens realizam melhoramento genético. Onde quer que
o homem tenha praticado agricultura neste planeta, ele adaptou espécies e
reforçou características interessantes. Recentemente, a engenharia genética
descobriu como transplantar genes de uma espécie para outra. Enquanto a
melhoria genética é semelhante à seleção natural, os transgênicos são uma
aberração das leis da natureza. Retiram um gene de um animal ou de uma
bactéria para implantá-lo em um vegetal ou vice-versa, tudo isso atendendo
aos interesses das grandes empresas multinacionais que procuram incrementar
os lucros investindo nesse tipo de pesquisa.
13. O movimento orgânico é retrógrado ao negar avanços científicos
como os transgênicos?
O desenvolvimento científico não é neutro, ele é motivado por algum tipo de
ideologia ou interesse. O movimento orgânico valoriza muito o conhecimento
científico como meio de conhecer os processos da natureza e saber como reproduzi-los
em nosso benefício. Encontramos na natureza uma sabedoria infinita da qual
somos fruto, como espécie. Já a agricultura que surgiu com os agroquímicos
e hoje atingiu seu ápice nos transgênicos tem uma postura arrogante diante
da natureza, achando que os homens podem melhorá-la. Assumem uma postura
prepotente ao transformar as leis que regem toda a vida do planeta. Os
orgânicos têm uma postura humilde, de aprendizado.
14. Conseguiríamos matar a fome da humanidade
se os agrotóxicos
e os transgênicos fossem proibidos?
Na verdade, somente se os agrotóxicos e os transgênicos forem proibidos
encontraremos um caminho para acabar com a fome no mundo. Ao contrário do
que dizem, as grandes monoculturas — que só são viáveis com o uso de
grandes máquinas, muitos agrotóxicos e adubos químicos (e agora
transgênicos) — retiraram o sustento de milhões de pequenos agricultores em
todo o planeta. Como a indústria, o comércio e as demais atividades urbanas
não são capazes de absorver este enorme contingente populacional, ficam
eles excluídos da economia globalizada e condenados a viver de caridade ou
a passar fome. As técnicas agrícolas atuais exigem um enorme investimento,
o que restringe a produção de alimentos a poucos. Sem os agroquímicos,
transgênicos e enormes máquinas agrícolas, poderíamos reabsorver a
mão-de-obra excedente na agricultura. Em pequenas e médias propriedades,
com a utilização de técnicas já comprovadas pela agricultura orgânica,
poderíamos produzir alimentos mais saudáveis, econômica e ecologicamente
sustentáveis e acolher os excluídos.
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